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CRÔNICA - FOTOS

Começo este texto concedendo autorização expressa a todos para me chamarem de ultrapassado. Assim, deixo vocês tranquilos, livres de constrangimentos e exames de consciência posteriores. Autorização carimbada, digo logo: tenho cisma com excesso de fotos. Sou incapaz de compreender o motivo pelo qual as pessoas precisam clicar cada milésimo de segundo de suas existências. Não que desgoste de fotos. Pelo contrário. Acho uma invenção pra lá de útil e lanço mão dela constantemente pra registrar meus pequenos. Mas o excesso... Sabe o que é pior nisso tudo? Pra mim as fotos estão tomando o lugar (antes insubstituível) das lembranças, ou melhor, das memórias afetivas. Agora a coisa enroscou e você deve se perguntar: “Como uma foto, instante do tempo congelado à perfeição, pode atrapalhar a memória?” Relaxe. Parece não fazer sentido mesmo. Eu também critiquei incontáveis vezes o raciocínio que explicarei um cadinho abaixo do texto. Porém, derrotado, rendi-me a ele. E acred...

Crônica - Willow

Vídeo locadoras estão margeando a extinção. A pressa prática dessa nossa vida impôs aos seus proprietários o autoreconhecimento de sua obsolescência e o baixar de quase todas as portas. Mas alguns ainda resistem e, aqui em Colatina, perto da minha casa, a Vídeo Logos mantém-se aberta. Teimosa, apesar dos pesares. Volta e meia levo meu filhote para escolher um filme lá. Precisar não precisa. Com o controle na mão ele pode acessar todo o Netflix ou alugar qualquer título para assistir na hora, mas ele adora ir na locadora. Então vamos. Certo dia fomos com a trupe completa à Vídeo Logos, foi a primeira vez da minha pequena. Ela estava ao meu lado quando entrou, mas ficou logo para trás. Pendi meus olhos para sua direção e percebi a cabeça inquieta fitando todos os cantos do lugar. “Noooooossa, papai! Quanto filme!” E dizia o nome de todos os conhecidos... desenhos, claro. Os demais se transformaram em homens correndo, vilões malvados, princesas, etc. Todos paramos para ...

Crônica - E se?

Qual o sentido de uma tragédia? Quem nunca teve essa pergunta martelando a cabeça após ver uma desgraça estampada na capa de um jornal? Encontrar uma razão maior para o fim da vida traz o conforto de imaginar que todo o sofrimento foi necessário para transformar a realidade daqueles ainda fincados neste plano. Mais uma vez isso ocorreu comigo na última semana. A destruição. Veículos espalhados, em pedaços, na rodovia e no matagal ao lado. O fogo. Pessoas gritando por socorro. Gritando pela própria vida. Gritando pela vida dos entes queridos e dos desconhecidos consumidos nas chamas. As histórias de sofrimento do dia seguinte... Pra quê? Em casos assim, somos quase empurrados pelo cérebro a imaginar como seria a realidade, na hipótese disso não ter ocorrido. E se? E se o ônibus atrasasse 5 segundos? E se adiantasse 5 segundos? E se o caminhão parasse em um posto por mais uns instantes? E se o motorista do ônibus perdesse apenas mais um sinal verde? E se o pn...

Crônica - Tatuados Estamos Todos

“Aquele dentre vós que estiver sem pecado, que atire a primeira pedra.” (Jo 8 : 7) A agulha correu nervosa pela testa do jovem, desenhando a vergonha do pecado e tornando pública sua fraqueza. A tinta misturou-se às gotas de sangue, rabiscando o escárnio merecido e guardado somente para aqueles que deveriam manter-se à margem de todos. São pragas e como tal devem ser identificadas e tratadas. A sanha de vingança consumia o carrasco que tudo fazia com o prazer doentio garantido aos cansados de presenciarem o mal reinar. Se a batalha parece perdida e salvador algum aparecerá, pelo menos os mortais se insurgem e combatem o possível, com as próprias mãos. O párea suplicava e chorava com a voz emplastada pela saliva grossa. As palavras desconexas faziam brotar um riso forçado na boca trêmula do carrasco. Não havia graça na cena, mas ele assim o fazia parecer, passaria um ar nefasto, faria o medo emergir ainda mais forte no coração do desgraçado. A lição jamais seria esquecida. ...

Crônica - Ficção e Realidade

Outra criança morreu. Tinha 2 anos e seu nome era Fabiane. O assassino, seu padrasto, antes de lhe arrancar a vida, a torturou e estuprou. Por uma coincidência macabra, o crime ocorreu no dia 18 de maio, reservado para nos lembrar da bestialidade humana; da nossa capacidade de explorar crianças sexualmente. Soube da morte da infante, porém, somente após a prisão do carrasco. Em mais uma brincadeira do destino, o padrasto foi pego ao tentar se esconder numa caçamba, em meio ao lixo, aos restos. Em paralelo, uma notícia chamou a atenção de muitos. Um livro distribuído nas escolas pelo MEC para crianças de 6 a 8 anos possuía um conto no qual um pai, arrebatado por uma paixão doentia pela filha, a pede em casamento e, ante a recusa, aplica-lhe uma punição: prisão nas torres do castelo. Caso a mãe ou as duas outras filhas a ajudassem de alguma forma, morreriam.  Muitos discordaram do governo. O livro estaria fomentando a pedofilia. Um livro tem esse poder? Poderia ele f...

Crônica - Invisíveis

Era porteiro de um luxuoso edifício. Em seu turno de 12 horas, permanecia enclausurado numa cabine de vidros blindados e película espessa. Ninguém o via. Os três monitores à frente lhe mostravam tudo o que fosse possível captar pelas câmeras de segurança distribuídas pelo térreo. Por elas sabia que o Dr. Sidney, renomado cardiologista, saía pontualmente às 07h15min. De igual forma britânica, às 07h30min, o amante da Sra. Costa, esposa do Dr. Sidney, adentrava no prédio com roupa de ginástica. Assistia à Margô, empregada dos Horst, descer com o herdeiro do casal para o play e ficar, por mais de uma hora, chafurdando no celular enquanto o menino comia terra. Observou um par de vezes a Amanda, do 420, adolescente recatada, sendo devidamente amassada pelo namorado nos cantos do corredor, próximo à porta corta-fogo. Os pais evangélicos não gostariam de saber disso. Gostariam menos ainda de saber que ela, no decorrer dos amassos, encarava lasciva a câmera de segurança. Acompanha...

Conto - Irmãos Gêmeos

— Tiago, você pode devolver esse pote pra Dona Vitória? — Disse Carol enquanto me mostrava a vasilha encardida que até ontem estava repleta de glacê e umas migalhas perdidas de bolo. — Ah amor... cê sabe que não gosto daquela velha. Ela fica se esfregando em mim. — Larga de ser besta, Tiago. Ela tem 90 anos. — Por isso que eu não gosto. Se tivesse uns 70 a menos a coisa melhorava um pouco. — Vem cá e me diz, pra quê eu falo umas besteiras dessas? A Caroline deu uma apertada de olho tão irritada, que meu olho encheu d’água. — É, deixa que eu levo pra ela. Você vigia os meninos? — Você vai demorar? — Disse erguendo os ombros. — Foi isso que eu perguntei? — Retrucou ela apontando o pote encardido na minha direção. — Não, mas fiquei curioso. — Cinco minutos. Você consegue ficar esse tempo todo sem fazer nenhuma besteira? Balancei a cabeça meio na diagonal, meio fazendo um círculo.  Eu sei, falta um pouquinho de autoestima aí, mas me conheço há m...