quarta-feira, 9 de março de 2011

Corda Bamba–Homenagem ao Dia das Mulheres

Abri os olhos. Senti meu corpo sacudir pela ação do vento. Percebi que me apoiava em algo estranho. Olhei para os meus pés. Estava em uma corda bamba. Tomado pelo medo, fitei à frente. A uns 15 metros, ao final da corda, havia uma pequena plataforma. Segurança.

Tentei olhar para trás. Não consegui. Desequilibrei-me e quase caí. Só então percebi que era impossível visualizar o chão. Não podia precisar a altura, mas em certo ponto do desconhecido abaixo, uma bruma densa como pedra me impedia conhecer o destino fora da corda bamba. Tinha que caminhar.

O medo da morte fez que com me apaixonasse pelo fio sobre meus pés. Aquela corda era minha sustentação. Meu equilíbrio. Meu único existir. Precisava caminhar.

Os passos eram lentos, mas confiava na corda. O trajeto era firme, linear, sem obstáculos. A plataforma se aproximava. Senti uma doce brisa vinda do leste. Sorri. Desequilibrei. Quase caí. Maldita brisa. Doce brisa que quase me arremessou em direção ao nada. Aquietei meu coração. Mais alguns passos seguros.

Apenas 3 metros da plataforma. Vou viver. Permiti-me um sorriso presunçoso. Ainda era cedo para sorrir. Nova rajada de vento. Nenhuma doçura. Apenas uma força cheia de ódio. Não suportei. Meu porto seguro faltou debaixo de meus pés. Caí. O vento castigou meu rosto. O medo da morte era insuportável. Atravessei as brumas. Encontrei o solo e, com ele, uma dor inacreditável. Voltei à corda bamba. Olhei para frente. Mais 15 metros.

Não entendi. Caí de uma altura incrível, mas não quebrei um osso sequer. Apenas meu peito doía. Como que por milagre, voltei à estaca zero. Ao menos estava vivo. Tinha minha corda aos meus pés. Segurança.

Caminhei novamente. Poucos passos. Nova rajada de vento. Essa, porém, não era carregada de ódio. Uma corrente de ar quente aqueceu também meu corpo. Incompreensivelmente tremi com o calor. Perdi-me em pensamentos libidinosos daquela corrente magnífica. Perdi também o equilíbrio. Nova queda. Terror antigo. Amaldiçoei aquela distração profana enquanto vislumbrava novamente a dor por debaixo das brumas. Atravessei-as. Nada aconteceu. Voltei à corda. Segurança.

Como era possível? Que lugar infernal era aquele? O que significava a sensação de prazer que tomava agora o meu corpo? Mais 15 metros.

Retomei o trajeto rumo à plataforma. Mais dois passos. Senti pelas pontas dos dedos o ar movimentar-se. Parei. Que sensação essa corrente traria? Pensei na corda. Estava seguro. O vento foi aumentando sem pressa. Desfrutei o momento. Em certa hora, sua intensidade estabilizou. A brisa refrescante acalmava o meu corpo cansado e produzia uma alegria desconhecida. Fechei os olhos. Gozei aquela sensação por um tempo incontável. Esqueci da corda e da plataforma. Sorri. Desejava que o momento perpetuasse na eternidade. Abri os olhos. Estava caindo novamente. Mas a alegria persistia. Mesmo na queda, o ar delicioso e repleto de amor acompanhou-me. Encontrei o chão. Dor. Voltei à corda. Outros 15 metros.

O peito queimava. O prazer experimentado a pouco ardia ainda mais. Mantive o equilíbrio. A plataforma estava à minha frente; mas olhava para os lados, tentando de maneira patética, visualizar aquele maravilhoso vento pelo qual estava fascinado. Aguardei alguns minutos. O ar permanecia estático. Desolado, segui para o único lugar possível. A plataforma se aproximava. Ansiava aquele sentimento mais uma vez. O bendito vento havia desaparecido. Estava a um metro do fim da corda. Apenas um passo. Esperei. Meus pés latejavam. A corda que antes era segurança, agora era sofrimento. Mais um passo e me livraria da corda, porém, nunca mais sentiria o frescor do amor trazido pela brisa de outrora. Dei mais uns minutos para o destino. Nada.

Quando inclinei meu corpo para subir na plataforma lembrei-me. Na última queda, aquela presença repleta de amor acompanhou-me até o fim. Olhei para as brumas do desconhecido abaixo de mim. Fechei os olhos. Sorri. Deixei-me cair.

O amor acompanhou-me incontáveis vezes. Sempre retornava à corda bamba, porém, ela não representava mais segurança. Apenas a dor daquilo que é invariavelmente estável. A rotina daquele trajeto perpetuamente linear me deixava louco de pavor. Depois de um tempo, a alegria passou a residir somente no descenso ao desconhecido. Nem sempre a queda foi prazerosa, mas a mínima chance de reencontrar o amor no abismo compensava todo o risco. Caí.

As mulheres, muitas vezes, produzem esse efeito nos homens. Desorientação, perda do equilíbrio, queda... Com seus altos e baixos, com sua intensidade irracional de pensar e viver a vida, as mulheres conseguem nos tirar do ponto de equilíbrio que, preguiçosamente, encaramos como felicidade. Seus arroubos de alegria, tristeza, raiva e amor nos tiram do sério e nos arremessam rumo ao vazio. Normalmente os homens odeiam sair de sua paz rotineira e estável. Mas a partir do momento em que encaram o desafio de saltar rumo ao desconhecido, passam a aproveitar, mesmo que por um efêmero instante, o esplendor intenso dessa gama infindável de sentimentos que denominamos mulher.

Parabéns pelo seu dia e obrigado por roubar nosso equilíbrio.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Conto - Lembranças

Era outubro, mas o calor da primavera ainda não vencera o inverno rigoroso. Todas as plantas que envolviam a casa simples traziam em seus corpos as marcas gélidas de um orvalho intenso da noite recém afugentada pelos primeiros raios de Sol.

Dentro da residência o silêncio reinava quase absoluto; era combatido somente por alguns passos arrastados. No corredor, um casal de idosos seguia de braços dados rumo à sala. Uma terceira pessoa os seguia desinteressada.

– Seu José, pode deixar que eu levo a Dona Maria para a sala. O senhor não pode se esforçar assim. – A enfermeira fingia preocupação. Cuidar de um casal de velhos não era um emprego ruim, mas ser obrigada a acordar em um domingo antes das oito horas da manhã era motivo suficiente para amaldiçoar a família inteira dos patrões.

– Arre! Já disse que eu levo ela. Teimosia besta! – Resmungou o velho com a voz rouca. Enquanto sua mão esquerda tateava a parede de madeira buscando um equilíbrio perdido há algum tempo, o braço direito, flexionado num ângulo de noventa graus, amparava a mulher que depositava nele o peso do próprio corpo, já que suas pernas não tinham mais condições de realizar o serviço. As mãos dela começavam a se esquentar, após a noite gelada, com o sangue correndo sem pressa pelas pontas dos dedos, que agora se entrelaçavam com os do marido. Infelizmente, não podia sentir esse calor atravessando-lhe o lado direito do corpo; uma veia rompida no cérebro tratou de impedir qualquer sensibilidade “ao leste do nariz”, como costumava dizer.

– Estou sentindo uma bezerrinha bufar aí atrás. – Comentou ela com um sorriso torto na boca. – Não para não. Assim eu esquento um pouco os ossos. A dor nas minhas costas até parou. Você podia fazer isso outras vezes, Margarida.

– E vou fazer mesmo, se o Seu José não me deixar fazer o serviço.

– Para logo com isso, não quero conversa. Já disse que eu levo ela para a sala. – José não podia se dar ao luxo de discutir no momento. Amparar a mulher vinha se tornando uma atividade cada dia mais difícil. Nunca precisara tanto de sua mão esquerda apoiando na parede.

– Isso mesmo meu velho, me segura, vai que eu caio em cima de um menininho por aí? Ai ai! Ia ser difícil me tirar de cima dele. – O riso estridente dela encheu o corredor que, por um instante, pareceu mais iluminado. Margarida não queria, mas foi obrigada a sorrir também.

– Larga de ser assanhada mulher. Estamos indo ver a missa. Respeito!

O casal seguiu até a sala; seus pés envoltos por meias grossas e encravados em chinelos de borracha eram arrastados pelo assoalho de madeira, provocando um som abafado e calmo.

Na sala, bem iluminada por uma grande janela aberta à esquerda, que permitia alguns convidativos raios matutinos entrarem, o trabalho de colocar Maria em sua cadeira demorou quase três minutos. Seu lado direito não mais respondia aos seus comandos e uma queda fizeram um estrago considerável em sua coluna. Sentar causava-lhe dor. Assim, como andar, como deitar...

– Ai meu velho! Já foi muito mais gostoso sentar nas coisas. Hoje parece que meu bumbum vai queimar!

– Meu Jesus, Maria! Quieta esse facho senão sua bunda vai doer dos tapas que vou te dar.

Ela passou a mão na cabeça do marido, olhou de lado para Margarida e continuou falando com o sorriso estampado no rosto: – Tá vendo menina? É assim que homem segura um casamento. Se o marido não dá uns tapas no bumbum da mulher de vez em quando, ela vai achar um menininho por aí que dê.

– Pelo amor de Deus Dona Maria! Vai deixar Seu José doido! – Margarida tentava chamar-lhe a atenção, mas a frase saía entrecortada com os risos incontidos e todo o efeito da reprimenda se perdeu.

– Arre! Bendito dia que meu pai foi cobrar aquela dívida do seu e acabou recebendo você para casar comigo! Margarida, liga logo a televisão.

A enfermeira, tentando conter o riso, virou-se para o aparelho, uma velha TV Philco, cor vermelha, que o casal ganhara há muitos anos de um filho. Ao ligar, um leve ruido foi gerado e após um brilhareco, a imagem chuviscada apareceu na tela. Girando o dial do aparelho, encontrou a emissora que transmitiria a missa dominical. A imagem era fraca, um tanto azulada, e muito prejudicada pelos chuviscos provocados pelo equipamento antigo.

– Eu vou lá na cozinha, porque o pessoal já deve estar chegando. Qualquer problema é só me chamar. – Antes de sair pela porta de acesso ao corredor, parou o passo de forma abrupta e dirigiu-se ao casal: – Ah! E parabéns para vocês!

– Obrigado, minha querida.

José olhava fixo para as imagens distorcidas dos preparativos para a cerimônia do corpo de Cristo. Há muito seus óculos não mais resolviam seu problema de visão, então preferia enxergar a televisão por cima deles. Angulava a cabeça de um jeito que os óculos transformavam-se em mero enfeite em seu rosto. Deixou alguns segundos passassem até sentir-se sozinho novamente com a esposa.

– Parabéns por quê?

Ela virou-se para o marido, segurou sua mão direita. Pôde sentir a pele grossa de seus dedos. A mão ainda era firme e com a pele grossa; evidentemente, não possuía mais a força para agarrar uma saca de café morro acima ou deitar um boi “na unha”, como fazia na época de veterinário prático, mas ela ainda guardava as memórias da força juvenil. Infelizmente, não se podia dizer o mesmo de sua memória.

– Hoje é nosso aniversário de casamento. Lá se vão 65 anos.

Ele permaneceu com o olhar fixo na televisão. Agora o celebrante, ao som do cântico inicial, postava-se diante do altar para iniciar a missa. Há algum tempo não se espantava mais com seus lapsos de memória; encarava tudo com a frieza de quem sabe não ser possível corrigir o que está errado. Por mais que pretendesse, grande parte de seu passado estava perdido em um canto desativado de sua mente. O sumiço da maior parte da sua história, o fez também mudar de comportamento; não era mais o homem ativo do passado que vivia na roça trabalhando ou no boteco conversando com os amigos, hoje preferia permanecer em casa todo o tempo; era melhor evitar o constrangimento de ser cumprimentado por uma legião de desconhecidos na rua. Todos diziam seu nome, com aquele olhar de pena que lhe causava repulsa. Não conhecia ninguém, não sabia como conversar com essas pessoas. O que diria? Eram estranhos. Melhor ficar em casa com a esposa. Ao menos este era um rosto familiar.

Da cozinha vinha um som que preencheu a sala. Risos e gritos de surpresa pareciam intermináveis. Não se podia compreender o que se dizia no outro cômodo; todos falavam juntos, berravam como se tentassem impedir um enforcamento.

– Diacho! Quem é que está gritando desse jeito? Não consigo ouvir a missa.

– Calma véio. Nossos filhos estão chegando para o almoço. Todos vão vir para o nosso aniversário de casamento.

– E precisam se esgoelar assim? Devem ser nossos filhos mesmos, os gritos deles são iguais aos seus.

– Agora está fazendo piadas também? – Ela ria da raiva do marido. Adorava vê-lo nervoso. – Sabe que você fica ainda mais bonito rindo?

– Você está com catarata, até um pé de jaca é bonito para você. – Retrucava ele em vão. Ela continuava rindo sem parar. Para José, Maria continuaria rindo até depois da morte. Às vezes, a invejava por isso... às vezes.

O assoalho rangeu pesaroso anunciando a entrada de um homem alto, com barba por fazer e uma barriga que denunciava o sedentarismo crônico. Maria não pôde ver sua entrada, pois seu pescoço não obedecia a qualquer comando que mandasse sua cabeça virar para o lado direito.

– Sua benção! – O homem abaixou e beijou-a na testa de forma carinhosa. Em resposta recebeu um “Deus te abençoe”.

– Oi pai! Tudo bom? Sua benção! – Estendeu a mão para José, que cravou o olhar no homem corpulento que se dizia seu filho e pedia a benção. Não lhe ocorria quem poderia ser. Estendeu a mão e abençoou de maneira protocolar o desconhecido. Estava se acostumando a abençoar estranhos.

A conversa que se seguiu foi, para José, como um sonho. Um sonho como tantos outros que permeavam sua vida há anos. Escolheu o silêncio. Manteve o olhar direcionado para a televisão, mas não fazia ideia do que o padre pronunciava. Fingia prestar atenção no sacerdote, tentando compreender alguns dos fatos recordados pela esposa e pelo suposto filho. Nenhum nome pronunciado atiçava sua mente; nada daquela conversa parecia fazer parte da sua vida.

Alguns poucos minutos se passaram e o homem se despediu do casal. Iria se encontrar com os irmãos na cozinha, havia muito o que preparar. Despediu-se da mãe com um beijo na testa. Acenou a cabeça para José, um tanto encabulado.

– Você se lembrou dele José?

– Sabe que não. Por que pergunta? – O rosto cansado era um reflexo da raiva interna por não se lembrar dos fatos mais banais de seu passado. Considerava-se um imbecil pela incapacidade de recordar dos próprios filhos.

– Esse é o Orlando. Hoje ele tem 47 anos. Pra você, quantos anos ele tinha ainda?

– Nossa, tudo isso? – José encarava a idade do filho com tristeza, não com espanto. – Lembro dele com 15. Meu Deus! Quanto eu perdi? – Gostaria de chorar, mas nenhuma emoção mais forte era gerada da constatação de que perdera mais de 30 anos da vida de seu filho. Causava-lhe muito mais angústia pensar que podia ter chorado por este fato incontáveis vezes, mas não se lembraria de nenhuma delas.

Maria sabia o que José sentia, convivia com o sofrimento do marido todos os dias, mas não conseguia se colocar no lugar dele. Sua mente, ao contrário, não a deixava quieta um segundo sequer. A todo o momento, pensamentos diversos explodiam em sua frente, fazendo desejar esquecer de tudo. Gostaria de um pouco de silêncio. Muita coisa vivida seria melhor que caísse no esquecimento.

Nesses momentos de fraqueza, onde a fuga parecia a melhor solução, olhava para a fisionomia perdida do marido, amaldiçoava o próprio egoísmo e agradecia aos Céus por ter a mente perfeita. Concluía que o tagarelar da sua mente era infinitamente melhor do viver no silêncio constrangedor do esposo.

– Não se preocupe meu velho. – Dizia carinhosa, roçando os dedos da mão esquerda no braço do marido.

– Não me preocupo. Não vou lembrar disso mesmo! – Maria sabia que o marido tinha razão; em cinco minutos a conversa com o filho escorreria por sua cabeça, desaparecendo por completo. Ela, pelo contrário, teria as palavras de José martelando na sua mente por muito tempo ainda.

Outros filhos e netos apareceram na sala. Maria conversou e brincou com todos. Alguns dos presente tinham os olhos mareados com os risos soltos provocados pela boca abençoada da mulher que mal podia mexer o próprio corpo naquela cadeira acolchoada. José permanecia inerte. Cabeça baixa, olhos por cima dos óculos, vez por outra murmurava palavras desconexas que nem ele próprio entendia. Aparentemente a missa entrara na primeira das três leituras dominicais, mas a passagem era o menos importante no momento. Seus olhos corriam medrosos cada um dos presentes, tentando reconhecer os rostos risonhos que se apresentavam à sua mulher. Seu cérebro informava ser a primeira vez que via aquelas pessoas... fazia tempo que considerava seu cérebro um grande mentiroso.

Quando elevava a voz a um patamar audível, de sua boca vazavam queixas e reclamações pela arruaça que o impedia de assistir a celebração do corpo de Cristo. Seus olhos percebiam que os presentes fingiam não notar sua presença, porém, quando lhe cediam um pouco de atenção era somente para transpassá-lo com olhares dúbios, carregados de medo ou indiferença. Às vezes pereciam enxergar um ditador, às vezes o fitavam como se fosse ninguém, um desconhecido, um qualquer que não fazia parte de suas memórias. Não entendia o porquê da reação de seus supostos filhos. Pensava no pai terrível que teria sido. Talvez esquecer não fosse tão ruim assim.

Todos se despediram. Um a um os passos deixaram na sala o eco lamentoso do ranger do assoalho. Apenas uma mulher manteve-se na sala, a pedido de Maria. Rosa era a terceira filha mais velha do casal e a primeira mulher a nascer da união de Maria e José. Com quarenta e quatro anos, tinha uma fisionomia tranquila; a linhas em seu rosto, apesar de denunciarem a chegada da idade, não lhe conferiam um expecto ruim, pelo contrário, desenhavam em sua face a história de uma pessoa que vivera com intensidade a maior parte do tempo.

Maria precisava ir ao banheiro, mas essa não era mais uma tarefa que podia se dar ao luxo de executar sem auxílio. Rosa laçou a mãe com os braços, tocando a bochecha no rosto quente dela. Firmou a coluna e trouxe para si o corpo da mãe proferindo um “Upa!” na execução.

– Cremdeuspai! – Riu-se Maria! – Depois de velha a gente vira criança mesmo. Até pra me levantar tem que falar upa?!

– Desculpa mãe, não resisti. – Rosa não conseguia ficar séria perto de Maria, algo nela provocava-lhe um comichão no rosto que se contorcia num sorriso constante.

– Velho, vou no banheiro e você fica quietinho aí! Se eu voltar e tiver uma menininha no seu colo, você vai se ver comigo!

– Arre, Maria! Sossega um minuto só! Não tenho paz mesmo, nessa casa.

Maria e Rosa saíram com lentidão da sala. Aproveitavam o tempo juntas para colocar em dia a conversa. Rosa contava como estavam suas aulas na escola primária onde lecionava, explicando para mãe como cada aluno se comportava na turma. O trajeto para o banheiro não passava de seis metros, mas a conversa rendeu muito. Maria se acostumara a não mais ter pressa para atingir seus objetivos.

Na sala, preso em seu silêncio, José voltava suas atenções para a missa. Perdera as leituras das escrituras e o início da homilia. O padre encontrava-se no meio de seu discurso; era um sujeito de meia idade, mas com feições novas. Falava com entusiasmo e aparentava ser descendente de italiano, pois quase todas as palavras proferidas eram acompanhadas de um gestual exagerado, como se fosse emudecer se ficasse com as mãos atadas.

– … sem se preocupar com o caminho traçado para nós por Jesus. Irmãos e irmãs, todos desejamos alcançar a felicidade, atingir a velhice e ter no passado um saldo positivo de nossas atitudes, para com nós mesmos e para com nossos irmãos. Entretanto, nessa petulância que nos é peculiar, temos a firme certeza que conhecemos o rumo certo a seguir e as decisões certas a tomar; esquecemos que nascemos na ignorância e nela permanecemos enquanto não abrimos os olhos para os dizeres, os rumos e as diretrizes traçadas por Nosso Senhor Jesus Cristo. Nossa autoconfiança nos impede de aprender com o Pai os passos certos a dar nessa caminhada, pois temos a convicção de estarmos sempre corretos. Pois lhes digo... estamos errados. Somos arrogantes por acharmos que podemos caminhar sozinhos. Ninguém, eu repito, ninguém anda sozinho nessa vida. Deus não quer isso, ele nos oferece a mão todos os instantes para que não sejamos obrigados a trafegar isolados em meio às trevas presentes no mundo. Cabe a nós perceber sua presença ao nosso lado, estender-lhe a mão e humildemente pedir ajuda. Deus ama a todos como filhos. Irmãos e irmãs, vamos abrir nossos olhos para isto, vamos abrir nossos corações para o amor de Deus, vamos permitir que o amor Dele nos contagie, vamos retribuir esse amor maravilhoso, vamos esquecer nossa soberba e, por fim, vamos permitir que Deus permaneça ao nosso lado, pois esse é o Seu maior desejo.

Ao final da homilia, o padre convocou toda a congregação a professar a fé com a oração do Creio. O som da multidão deixando seus assentos para iniciar a oração foi a deixa para José baixar seus olhos e acompanhar a prece. À sua frente, porém, algo novo chamava-lhe a atenção; uma figura sorridente e diminuta prostrava-se diante dele com um sorriso impávido. José não fazia a menor ideia de quem poderia ser; como sempre, sua mente pregava peças; já estava ficando cansados das brincadeiras de seu cérebro. Sentia saudades de encontrar pessoas conhecidas, pois hoje todos eram grandes incógnitas. Sentia-se um estrangeiro em perpétua movimentação por mundos que não conhecia.

No banheiro, Maria estava sentada no vaso sanitário branco, que havia sido elevado alguns centímetros para facilitar o uso, enquanto Rosa a observava com ar de irritação.

– Não sei por que essa teimosia? Eu posso te limpar mãe, a Margarida faz isso, porque diabos eu não posso?

– Já disse pra você não repetir o nome do cramulhão perto e mim! Me respeite! – A fisionomia suave deixou o rosto da idosa, permanecendo apenas o semblante cansado e cheio de rancor.

– Eu não consigo fazer mais nada sem a ajuda dos outros. Nunca precisei da ajuda de ninguém. Todos os meus nove filhos eu pari aqui nessa casa, só eu, uma parteira e Deus. Hoje não me deixam nem comer sozinha, pra tudo eu dependo dos outros. Sou um pedaço de bosta enterrado em uma cadeira que não consegue nem levantar sem ajuda de alguém. Se limpar a minha própria merda é a única coisa que consigo fazer sozinha, por favor, não me retire esse prazer. – Seu rosto desfigurado tinha diversas veias aparentes que ameaçavam estourar a qualquer momento.

– Mãe, desculpa! Não quis ofender a senhora. Não era a minha intenção. Eu estou fora de casa, não faço ideia do que acontece aqui. Me perdoa. – As lágrimas corriam soltas pelo rosto da filha. Vergonha, medo, raiva, tristeza eram só alguns dos sentimentos que martelavam seu peito naquele momento.

– Esquece filha, você não fez por mal. – Maria deslizava a mão esquerda pela testa, tentando enxugar um pouco o suor. – Me perdoa também! Só me ajuda aqui, vai. – A velha não sabia para quem estava gritando: para a filha, por não entender seus desejos, para si mesma, por não possuir forças para as tarefas mais simplórias da vida, ou para Deus, por não encerrar logo essa vida inválida.

Rosa mais uma vez abraçou a mãe, mas não havia prazer naquele movimento. O sangue ainda fervia em suas veias e estar perto de Maria naquela hora era o que menos desejava. Mas esse era seu dever de filha; trouxe-a para si e esperou alguns segundos enquanto a mãe se limpava. Repetiu o gesto quatro vezes e ao final suspirou aliviada pelo fim do esforço. As duas se olharam e viram o suor brilhante salpicar grande parte de seus rostos. Com o líquido salobro, também a tensão abandonou seus corpos.

– Fala verdade minha filha, você já pensou que cagar fosse tão difícil? – O riso frouxo das duas ultrapassou os limites do banheiro e atingiu a cozinha, onde os demais filhos tentavam descobrir qual a nova besteira fora proferida pela boca bendita da mãe.

De volta ao corredor, os pés cansados de Maria se arrastavam pelo assoalho da casa enquanto seu braço era enlaçado pelo da filha que, com calma, acompanhava seu caminhar lendo. Vez por outra trocavam olhares cúmplices; palavras eram dispensadas, pois o brilho de seus olhos transmitiam o amor mútuo com tal clareza que não era preciso externar o sentimento do momento.

Quando chegaram na sala se surpreenderam com uma pequena menina loira sentada no colo de José. Seus cabelos dourados passavam pouco dos ombros e tocavam delicados a blusa regata rosa. O pequeno short verde não fazia uma combinação muito boa com a blusa, principalmente porque ambas as peças estavam visivelmente gastas pelo uso, mas eram perfeitas para uma menina que estava se preparando para se esbaldar no enorme quintal da casa.

– Ora, ora! Quem foi que abriu o galinheiro para essa pintinha rosa sair? – Perguntou alto Maria enquanto se preparava para sentar-se.

– Essa é minha nova amiguinha, Beatriz! – Disse José com orgulho. – Estávamos aqui conversando um pouco e ela me pediu para mostrar os coelhos. Não é, Beatriz? – Ao que a menina respondia sacudindo a cabeça para cima e para baixo, com um sorriso lindo e o dedo indicador direito na boca.

– Nossa que bom! Será que seu pai vai deixar você levar um coelhinho para casa dessa vez? – Inquiriu Maria enquanto sentia os fios de cabelo finos da menina.

– Num sei! – Respondeu a pequena levantando os ombros com as duas mãos espalmadas para cima.

– Ah, mas pode deixar que eu vou conversar com ele. Dessa vez você vai para casa com um coelhinho branquinho! – José disse com um sorriso torto no rosto enquanto dava um pequeno beliscão no queixo da pequena.

– Eba! – A menina pulou do colo de José, que riu imediatamente do susto tomado. Sumiu da vista do casal em menos de um segundo. – Papai! Papai! Eu vou poder levar um coelhinho pra casa. Me ajuda escolher? Vamos pap... – o som doce da voz da menina perdeu-se enquanto ela rebocava o pai para fora da casa.

– Deixa eu ver se alguém está precisando de mim, qualquer coisa é só chamar. – Rosa abaixou-se e beijou a testa dos pais, primeiro Maria e após José, que ainda tinha no rosto as marcas deixadas pelo sorriso.

O casal permaneceu alguns instantes mais em silêncio, como se desfrutando da aura tranquila que a pequena garota deixara no recinto. Na televisão, a imagem distorcida e cheia de chuvisco deixava transparecer apenas uma figura torta com as mãos para o alto; deduziram eles que o corpo de Cristo estava sendo apresentado à congregação.

– Maria, essa menina é nossa neta? – José torceu um pouco a cabeça para a esquerda ao perguntar à esposa.

– Não querido, ela é nossa bisneta. É a filha do Augusto, nosso primeiro neto.

O rosto de José não recebeu a notícia com tristeza ou espanto; deixou a novidade ser assimilada pelo cérebro e prosseguiu com um leve sorriso no rosto. Não importava quem a menina fosse, ela exalava uma alegria revigorante que contagiava a todos.

– Que graça de menina.

Maria ampliou o sorriso nos lábios até a pele das bochechas se dobrarem em marcas fundas. Aproximou-se um pouco mais do marido e tocou-lhe o braço com carinho.

– Meu velho, você sempre diz a mesma coisa da Beatriz. E vou de contar um negócio, eu tenho um ciúme danado desse chamego de vocês dois, ela sempre gostou mais de você do que de mim.

José tornou a olhar para a televisão, que transmitia agora imagens quase indecifráveis da missa que deveria estar por terminar.

– Gostaria de poder me lembrar dela. – José baixou a cabeça por alguns instantes, tornou a levantá-la e fitou a esposa. – Maria, eu fui um bom marido? – A pergunta soava como súplica e Maria não conseguiu impedir que seus olhos ficassem repletos de lágrimas.

– Você não foi, você é um marido maravilhoso! Se hoje nossos filhos e netos tem alguma noção de responsabilidade é porque você esteve sempre perto, mostrando o que devia ser feito e como devia ser feito.

– Às vezes penso que posso ter sido duro demais com eles.

– Não se preocupe José. Você fez o que precisava. Tem vezes que a gente precisa ser duro mesmo. Imagina se você fosse igual eu, falando besteira o tempo inteiro...

– A gente não teria filhos, teria um monte de palhaços em casa. – Os dois riam juntos da piada de José. Seu humor era cada vez menos presente, então Maria desfrutava dele sempre quando aparecia.

– Bom, pelo menos a gente montava um circo. Dava pra ganhar algum. – As gargalhadas transbordavam os limites da sala e atingiam a cozinha, onde o restante da família amontoava-se para apreciar a alegria dos dois.

– Espero que a nossa vida tenha sido feliz. – Suspirou José enquanto recuperava o fôlego pelas gargalhadas.

– Nós fomos muito felizes, meu velho. – Maria tocava a mão do marido com a ponta dos dedos, fazendo movimentos leves e circulares, sentindo as veias grossas presentes somente nas mãos dos que sofreram e trabalharam por toda a vida; eram como uma cicatriz gerada pelo trabalho e sacrifício, uma cicatriz pulsante, que não se permitia parar. – Só lamento que você não consiga lembrar de tudo.

– Arre! Não preciso lembrar, já tenho você aqui, que não fecha essa matraca e não me deixa esquecer de nada. Sua tagarela! – Maria continuava sorrindo e percorrendo a mão do marido com os dedos. Olhava seus cabelos ralos, sua pele maltratada pelo Sol, aqueles óculos sempre caídos na ponta do nariz e agradecia a Deus por recordar-se de cada instante ao lado dele.

José virou a palma da mão para cima e agarrou os dois dedos de Maria que o acarinhavam. Em seu rosto os lábios se esticaram num sorriso e os olhos enrubesceram pelas lágrimas. Na televisão, a multidão de fiéis agradecia pela celebração do corpo de Cristo e começava a deixar a Igreja, enquanto no restante da casa o tumulto de filhos, netos e bisneta continuava; um almoço precisava ser feito. A vida seguiu para todos eles.

sábado, 3 de julho de 2010

Crônica - Guerreiros

Sentei-me na poltrona de frente para a TV e aguardei o jogo começar. O hino tocava enquanto a câmera caminhava pelas faces dos jogadores... alguns balbuciavam a letra, outros não. Há dias temia o jogo contra a Holanda, com certeza, nosso mais forte adversário nesse campeonato mundial. Era um time forte, aplicado e com alguns lampejos de criatividade assustadora.

Após trilar o apito do árbitro, uns poucos instantes de futebol proporcionaram uma reflexão e duas conclusões rápidas: a laranja mecânica estava com as engrenagens em descompasso e o Brasil estava nervoso além da conta.

O destempero do time brasileiro assustou-me um pouco. A imagem de um ensandecido Robinho gritando “fuck off” para um holandês (em uma supercâmera lenta, onde foi possível perceber o ódio estampado em cada músculo), não contribuiu em nada para tranquilizar minha mente.

Mas o nervosismo pareceu um problema irrelevante, pois o Brasil jogava muito mais que a Holanda. Passes curtos, rápidos, precisos... a laranja mecânica parecia perdida. A bola não parava em seus pés e os jogadores brasileiros só eram parados com falta.

Evidentemente Kaká seria bem marcado. Ele era o cérebro do time, estampava em suas costas o sagrado 10. Contudo, ele não podia ser o único a ser marcado; éramos 11 jogando um belo futebol. Nessa toada, de quem menos se esperava, veio o instante de magia; Felipe Melo, o Dunga do Dunga, serve uma Jabulani preciosa e precisa para Robinho; desde o meio-campo ela atravessou incólume todos os abasbacados jogadores de laranja e posou por milésimos nos pés do atacante. Gol!

Os holandeses mudaram a postura após o gol, mas não conseguiam alterar a história do primeiro tempo. Com Kaká, Juan e Maicon o Brasil poderia ter feito mais. Não fez. Fez falta.

Como torcedor, evidentemente, não percebi isso no momento. Meus olhos grudados na televisão transportavam para minha mente imagens que faziam esquecer as dificuldades daquela partida. Estava fácil demais; pelo visto, o nervosismo dos jogadores não seria um problema muito grave; talvez a Holanda não fosse tão forte assim...

Começa o segundo tempo.

E o time que foi para os vestiários vencendo não voltou para o campo. De alguma forma que somente os obscuros mistérios do futebol podem explicar, o Brasil não existiu como um time na etapa final. Por outro lado, os holandeses encheram-se de confiança e tranquilidade e encararam aquele espaço de tempo restante como uma batalha. E lutaram lindamente.

Não que os brasileiros tenham deixado de lutar. Pelo contrário, lutaram muito, mas com armas diferentes.

Arma dos holandeses na peleja era a bola. Usaram-na com maestria; tudo o que foi feito pelo Brasil no primeiro tempo os holandeses empregaram com correção no segundo. Não que tenham jogado um futebol encantador, não acho isso. Mas não erravam. Os malditos não erravam!

Era tempo dos brasileiros passarem por momentos de desnorteio, de desorientação. Por não encontrar a bola, contentavam-se com as pernas dos adversários. E o nervosismo aumentava.

Em uma bola despretensiosamente lançada para a área por Sneijder, Julio César e Felipe Melo saltaram juntos para atingir a Jabulani; morreram abraçados no gramado e a bola nos braços carinhosos da rede ao fundo.

Jogo empatado e Dunga era o reflexo do campo. Ensandecido em sua jaula tracejada de branco no gramado, parecia um gorila: agachava-se, como se pronto para o ataque; gritava; batia no peito; surrava seu abrigo, digo, banco de reservas.

No palco, os jogadores continuavam a guerrear, mas não com a bola, como deveria ser. Guerreavam com as travas das chuteiras, com gritos, com descontrole. Numa patética tentativa de assustar os holandeses. Como se eles tivessem medo de cara feia. Não tinham.

Novo cruzamento e dessa vez Sneijder completou para o gol. No alto de seu um metro e setenta, venceu a defesa do Brasil. Para cabecear saltou pouco mais de dez centímetros. Ao cabecear, fez o time inteiro do Brasil despencar de uma altura superior a um quilômetro.

A queda fez os jogadores ficarem ainda mais desorientados. Antes que conseguissem achar o equilíbrio, a loucura abateu-se sobre suas mentes. A perda momentânea do juízo produziu marcas eternas. Quando as travas da chuteira de Felipe Melo encontraram a coxa de Robben toda uma nação teve o vislumbre do fim da Copa, muito antes de o árbitro apitar o final da partida. Ao mostrar o pequeno retângulo vermelho para Felipe, o juiz encarnou um toureiro às avessas, acalmou todo o time. Tornaram-se gado manso, domesticado, inocente e indefeso.

O resto foi apenas a espera pelo fim. Os minutos passavam despreocupados. A Holanda jogava como em um treino. E o Brasil de guerreiros não tinha mais força para lutar.

Terminada a partida levantei-me e fui procurar um rumo... na verdade queria procurar um culpado. Assustei-me ao encontrar muitos.

Quando o sangue esfriou e consegui colocar as ideias nos devidos lugares, percebi ter faltado a essa seleção um líder. Um exército que se preze não pode vencer batalhas apenas com guerreiros; é imprescindível para a vitória um comandante centrado e tranquilo, que consiga indicar aos subalternos os caminhos para invadir o front inimigo e subjugar sua defesa.

Dunga nunca foi um comandante; desde seus tempos de jogador, era um guerreiro. Ficou famoso por isso. Conheceu inferno e céu sendo desta forma. Como técnico deveria saber que sua postura tinha que mudar. Não mudou. Todos nós perdemos.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Análise – Livro – Sinuca de Bico

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SINUCA DE BICO
Autor: Josh Bazell
Editora: Rocco
Páginas: 286. R$ 39,00

O Dr. Peter Brown não é uma pessoa feliz. Pelo contrário, parece odiar a tudo e a todos que o cercam, desde animais inofensivos aos pacientes que é obrigado a atender no Manhattan Catholic Hospital, onde é médico residente. Cada dia no exercício da medicina assemelha-se mais a uma condenação do que o simples desempenho de uma profissão.

O que não deixa de ser verdade, pois o protagonista do primeiro livro escrito pelo estadunidense Josh Bazell não cursou medicina pelo firme propósito de salvar vidas alheias (o que, inclusive, gera uma impagável passagem no livro no início do segundo capítulo), mas para fugir da máfia, que não vai descansar enquanto não tiver sua cabeça em uma bandeja.

As coisas complicam por completo quando um dos pacientes o reconhece e ameaça denunciar sua nova vida para David Locano, exatamente o chefe do clã que o persegue.

A narrativa do livro, portanto, desdobra-se em duas frentes, enquanto acompanhamos todo o esforço do protagonista para não ser descoberto pela máfia, somos remetidos ao passado, onde conhecemos Pietro Brnwa, jovem que teve seus avós assassinados, passa a ser um assassino contratado pela família Locano e transforma-se posteriormente em Peter Brown, graças ao programa de proteção à testemunha.

Neste último parágrafo reside o grande trunfo do livro, a forma com que o autor trata essas duas histórias impede que o leitor perca o interesse pela trama. O meio utilizado é simples, o modo de executa-lo, nem tanto. Bazell faz um revezamento constante entre passado e presente do protagonista, capítulos ímpares cuidam do presente e pares do passado (com exceção no último capítulo).

Assim, a cada capítulo par descortinamos um pouco mais do passado de Peter Brown e descobrimos os motivos pelos quais o protagonista tornou-se uma pessoa tão perigosa e cheia de ódio.

Evidentemente essa forma não-linear de tratar o texto é complexa em termos narrativos, e isso fica claro durante a obra. Isso porque o passado do protagonista é repleto de detalhes e passagens importantes para a construção do seu caráter, abrangendo um período enorme de tempo (vários anos), enquanto o presente como médico é retratado no livro em um período de apenas um dia.

Portanto, há muito mais a ser dito sobre o seu passado do que sobre o presente; isso faz com que vários momentos da história pretérita de Peter (na época ainda Pietro) sejam mencionados de maneira apressada.

Outro problema dessa “pressa” em retratar o passado do protagonista é a construção de alguns personagens. Para criar um pouco mais de empatia com o leitor, Bazell deveria ter desenvolvido melhor duas pessoas essenciais para a trama: Adam Locano e Magdalena. Ambos são imprescindíveis para explicar o atual estado psicológico e emocional do protagonista, porém, não lhes é dado no texto o espaço merecido. No caso específico de Magdalena, entendo ter o autor se equivocado ao construí-la; no início é uma religiosa fervorosa, contudo, cede facilmente ao apetite sexual de Peter (após um ou dois “não’s” sem muita convicção) e aceita de uma maneira incrivelmente fácil o fato de seu namorado ser um assassino contratado pela máfia! Convenhamos, este não é lá um comportamento normalmente visto em pessoas religiosas.

Mas acredito que tais equívocos também façam parte da inexperiência do autor, afinal este é seu primeiro livro. E para uma estréia, ele se sai muito bem.

O livro é dotado de um humor ácido. Bazell, por meio de seu protagonista, ataca sem perdão o sistema de saúde dos EUA, além de boa parte da categoria médica. E o autor sabe dosar tranquilamente o humor durante o texto; lógico que algumas piadas não funcionam como deveriam, mas grande parte delas é ótima (adorei o raciocínio sobre o fato de os anões da Branca de Neve sofrerem de silicose!!!).

Além do humor, o que não falta em Sinuca de Bico é violência. Aliás, Peter Brown pode ser considerado um novo Chuck Norris… a forma com que ele elimina os inimigos é tão fácil quanto impiedosa. O final do livro, inclusive, guarda uma cena de automutilação simplesmente inacreditável. Aqueles que assistiram Jogos Mortais 1 e acharam forte a parte em que o médico amputa o próprio pé para libertar-se de uma corrente, mudarão de opinião após lerem Sinuca de Bico!

É de se mencionar que essa incrível habilidade do protagonista de matar pessoas pode ser considerado uma bola fora do autor; já que, em nenhum momento é mostrado um aprendizado de Peter ou mesmo uma evolução na sua técnica, ele simplesmente tem um dom para matar qualquer um que apareça em seu caminho.

Como visto, erros durante o texto existem e precisam ser citados, porém, a história não-linear, a narrativa ágil, o humor ácido e o protagonista revoltado com o mundo e extremamente violento, tornam este livro de estréia de Josh Bazell uma grande pedida para aqueles que gostam de uma boa história policial. É um livro pequeno, de leitura agradável e com uma narrativa eficiente que mantém o interesse do leitor até a última palavra.

Uma última informação, toda a crítica feita por Bazell à classe médica e ao sistema de saúde americano são feitas com certo embasamento, pois o escritor também é médico residente.

sábado, 10 de abril de 2010

Análise – Livro – Caim – José Saramago

Autor: José Saramago
Editora: Companhia das Letras
172 páginas. R$ 38,00.

Antes de iniciar a análise propriamente dita, é importante frisar que as opiniões aqui exaradas são referentes somente ao texto de Saramago. Tentarei não expor qualquer opinião religiosa, muito embora o livro aborde de maneira incisiva o tema.

Um segundo ponto que devo salientar (este com repercussões mais diretas ao livro) é que Saramago é ateu. Mas a leitura de “Caim” me deixou a impressão que o autor acredita que Deus não existe e se existisse o odiaria. Opinião dele, esta eu não discuto; porém, o seu aparente ódio refletiu no resultado final do livro, negativamente falando.

A história de “Caim” inicia antes mesmo de seu nascimento. Estamos falando do limiar da humanidade, ou melhor, do Universo em si.

Saramago coloca a sua visão da criação, com o jardim do éden e seus primeiros habitantes humanos: Adão e Eva (no livro, todos os personagens têm a primeira letra do nome minúscula, inclusive Deus. Mais tarde trataremos do assunto).

No início da obra, Saramago descreve não só a criação, mas o convívio de Adão e Eva no interior do Jardim Sagrado, bem como os conhecidos efeitos da gula por uma certa maçã proibida. Logo após a saída do Éden, a história direciona o foco em Caim, o primogênito do casal primeiro e personagem da primeira manifestação de inveja da raça humana.

Caim inveja a relação de seu irmão Abel com Deus, pois todas as oferendas realizadas por Abel são aceitas de bom grado enquanto as de Caim são rejeitadas sumariamente. Desta maneira, imaginando ser Abel o preferido de Deus, pratica o fratricídio.

Deus indignado com a atitude de Caim o castiga pelo ato; impõe a ele a condenação de andar errante pelo mundo até o fim de seus dias. Caim, preocupado com sua vida durante sua caminhada, imaginava que seria morto logo, pois havia matado o próprio irmão; então Deus, para evitar o assassinato de Caim, marca-lhe a testa; este sinal impediria que qualquer mal lhe ocorresse.

Desta forma, Caim inicia sua jornada pelo mundo, começando pelas terras de Nod. Seu caminhar, contudo, passa por importantes passagens do velho testamento, como a Arca de Noé, o sacrifício de Abraão, as Muralhas de Jericó e o desafio a Jó.

No meu entender, a vontade de Saramago de, com esta obra, zombar e questionar as ações de Deus foi sobreposta ao gosto literário. Ao final do livro pareceu-me que criticar Deus somente pela história de Caim era muito pouco (mesmo porque este personagem na Bíblia tem uma passagem muito pequena), queria o autor português apontar todas as passagens possíveis onde Deus teria se mostrado um tirano sanguinário.

Interessante foi a saída encontrada por Saramago para fazer com que Caim viajasse por todos esses fatos conhecidos da Bíblia. Em suas andanças Caim simplesmente sai de um lugar para o outro, como se pulasse para o futuro ou, como dito no livro, “para outro presente”.

O meio imaginado foi interessante, o resultado final não.

O que mais me incomodou durante todo o texto foi a natureza episódica da obra. Caim salta para a Torre de Babel, presencia os fatos e salta novamente para outro ponto. Visita Sodoma e Gomorra, fica escandalizado com a morte de diversas crianças inocentes pelo fogo sagrado e salta novamente para outro ponto. Em momento algum conseguimos nos afeiçoar com qualquer personagem, inclusive o principal, que por quase toda obra mais parece um coadjuvante, muito embora devesse ser o protagonista.

Em vários momentos a presença de Caim é completamente irrelevante para a narrativa, sua manutenção física no local justifica-se apenas para que a passagem bíblica a ser criticada pelo autor seja contada.

Nos poucos pontos onde a narrativa se assenta para descrever mais sobre os personagens e a situações em que se envolvem, o texto cresce. É assim, por exemplo, no início do livro com um tom cômico ótimo, ou no momento em que Caim encontra Lilith pela primeira vez.

Esta passagem em particular merece algumas observações positivas.

Em primeiro lugar, foi ótima a metáfora encontrada  por Saramago ao narra a chegada de Caim nas terras de nod. Sem emprego, a única atividade que lhe foi oferecida foi a de pisar o barro. Podemos fazer relação deste emprego de Caim com um desdém pela obra suprema do Criador ou mesmo que são os homens e não Deus os responsáveis pela própria origem e por construir o futuro.

Em segundo lugar, a personagem Lilith, muito embora não retratada na Bíblia, é bem conhecida. Conta a lenda que ela foi a primeira esposa de Adão (antes de Eva, Lilith também tinha sido gerada do barro), mas seu marido não a aprovou, pois durante o ato sexual ela se recusava a ficar debaixo do marido, queria, digamos, controlar a situação. No livro de Saramago, Lilith é a governante de uma pequena cidade; muito embora tenha marido, pode levar para cama quem bem desejar. Não é preciso gastar muito a palavra neste ponto, evidentemente, ela se afeiçoa a Caim e faz dele seu escravo sexual. Posteriormente, brota em ambos a paixão.

Infelizmente, são poucas as páginas em que o texto de Saramago sobrepõe-se às suas convicções religiosas. Após deixar Lilith em sua cidadela, Caim passa a viajar pelo Velho Testamento, criticando Deus e seus desígnios, mas sem obter êxito em cativar o leitor.

O livro tem um acentuado tom de comédia, sendo este um ponto positivo que deveria ter sido mais explorado pelo autor. Quando acerta a mão, produz passagens ótimas, como a explicação de como seria fácil evitar que Eva e Adão comecem do fruto proibido: "se realmente não queria que lhe comessem do tal fruto, remédio fácil teria, bastaria não ter plantado a árvore, ou ir pô-la noutro sítio, ou rodeá-la por uma cerca de arame farpado...".

Mas nem mesmo a comédia é boa todo o tempo, em alguns instantes Saramago flerta com o ridículo. Parece tentar repetir Terry Pratchett, mas sem a elegância e criatividade cômica do inglês criador da sensacional série Discworld.

Ponto negativo também é o desenvolvimento dos personagens; praticamente todos retratados de maneira estéril, sem criatividade. Reputo isto à natureza episódica do texto; Saramago se ateve muitas vezes ao texto Sagrado e narrou passagens demais, havia pouco tempo para construir personagens.

Aliás, como dito alhures, todos os personagens possuem a primeira letra do nome minúscula, inclusive Deus. Ao que parece, Saramago assim agiu pois repudia a Deus, não o considerando como ser digno de nota, e os demais personagens não podem ser considerados pessoas, apenas peças em um tabuleiro ou cordeiros prontos para o sacrifício.

A vida de Caim poderia render um ótimo livro, mesmo porque sua passagem na Bíblia é pequena. Poderia Saramago ter contado a trajetória sofrida do primeiro assassino da história (e no ínterim criticaria Deus conforme bem entendesse), mas seu desejo de desconstituir grande parte do Velho Testamento fez sua narrativa perder força, seus personagens perderem importância como pessoas e a piada perder a graça.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Análise – Livro – A Zona Morta – Stephen King

Autor: Stephen King
Editora: Ponto de Leitura
610 páginas. R$ 19,90.

A marca “Stephen King” é conhecida no mundo inteiro. Mesmo aqueles que nunca leram um livro do Sr. King já assistiram um filme baseado em alguma de suas obras. São dezenas. Algumas de gosto duvidoso, outras pequenas obras de arte. A Zona Morta inclui-se tranquilamente nesta segunda categoria.

Neste livro, Stephen King narra a história de um jovem professor de uma pequena cidade estadunidense, John Smith, que desde criança tem um dom perturbador; quando toca em uma pessoa é capaz de descobrir tudo sobre o seu passado, além de enxergar flashes de seu futuro.

Este dom surge em um momento dramático de sua infância, quando sofre um acidente no gelo e bate fortemente sua cabeça.

Porém, somente na idade adulta toda a intensidade de sua aptidão seria revelada. Coincidentemente após outro acidente. Entretanto, este acidente quase lhe ceifou a vida, deixou marcas perpétuas em seu corpo, além de tê-lo feito perder quase 05 anos de sua vida, período em que passou vegetando, em estado de coma.

Terminada a leitura deste livro, peguei-me pensando se realmente A King tinha a intenção de escrever um livro de terror. Se este foi realmente seu objetivo principal, acho que falhou miseravelmente. Não se preocupe, leitor, não digo isso como se apontasse um ponto negativo no texto.

Apenas aponto para os desavisados que este não é um livro de terror… é um drama, e dos melhores que já li.

É impossível não se comover com a história sofrida do protagonista. A todo momento o leitor se perguntará se sua habilidade paranormal é um dom ou maldição divina.

Stephen trabalha o texto como de costume, sem pressa. Apresentando cada detalhe e cada personagem de uma forma pausada e tranquila, para que possamos degustar as personalidades de todos os que compõem o texto. Isso sempre foi um de seus pontos fortes, a preocupação com o psicológico e com a história de todos os componentes da narrativa.

Diferentemente de muitos autores (como Dan Brown) que resumem personalidades complexas em uma palavra, reduzindo a quase nada o ser humano, King trata cada um de seus personagens com um carinho paternal. Mesmo os vilões (que são medonhos, diga-se de passagem) são objeto de análise criteriosa do autor; desta maneira, suas atitudes, mesmo as mais ensandecidas, são explicadas. E ainda quando as ações são inexplicáveis, são devidamente fundamentadas.

Ou seja, os vilões são loucos, mas sabem o que estão fazendo e por que estão fazendo suas atrocidades.

Isto humaniza os personagens, deixando próximos a nós. Com o passar da leitura, nos afeiçoamos a cada um deles. Desta maneira, quando sofrem algum mal ou morrem nós também sentimos; acompanhamos sua dor com apreensão e compaixão, torcemos para sua vitória e choramos cada derrota.

Dos livros que li de Stephen King, talvez este seja o que o autor estadunidense tenha trabalhado melhor o seu protagonista. Johnny é uma pessoa simpática, extrovertida e que consegue cativar qualquer um de uma maneira rápida e natural. É impossível não sentir pena, portanto, de todo o mal que lhe aflige durante a narrativa. Seu fardo é inacreditavelmente pesado e ele, ainda assim, consegue carregá-lo. Muitos teriam desistido ou enlouquecido, mas a força de nosso protagonista o mantém de pé, caminhando.

Diversos são os problemas enfrentados por Smith desde o fatídico acidente automobilístico que, se não o matou, privou-lhe de mais de 04 anos de vida, de alguns movimentos de sua perna, de um aspecto saudável (as cicatrizes em seu corpo não permitem esquecer a tragédia) e o amor de sua vida. Após acordar de seu estado vegetativo ele percebe que o mundo mudou, ou melhor, o mundo seguiu o seu curso natural, muito embora ele tenha ficado preso nas ferragens de um carro como que paralisado por 05 anos.

Este livro foi escrito por King em 1979 e é possível perceber o frescor de sua narrativa. A obra tem todos os pontos positivos do texto de King sem os seus pontos negativos.

É costumeiro ouvir críticas ao trabalho de Stephen, pois durante a narrativa o autor tende a se perder em histórias paralelas sem sentido ou propósito aparente para a trama principal. Vagando em seus pensamentos desordenados o autor também faz o leitor viajar, mas no sentido ruim da palavra, tornando a leitura, por vezes, maçante.

Não aqui. Nesta obra, King usa cada subtrama, cada desvio do texto para incrementar a narrativa e conferir profundidade a todos os personagens envolvidos. É impressionante que um livro tão extenso consiga manter o interesse do leitor em um patamar tão alto sem cessar. A narrativa é detalhista sem ser chata, descrevendo cada instante da vida de Johnny de uma forma crível… e terrível.

Também estão presentes no livro temas correntes na obra de King: fanatismo religioso (personificado na mãe do protagonista), histeria popular (pela divulgação nacional do poder paranormal de Johnny) e a dualidade dom x maldição (o protagonista passa por todo o livro rejeitando seu poder, haja vista toda a desgraça que lhe afligiu após sua manifestação).

Todos são temas com os quais o leitor pode facilmente se identificar. Aliás, é impossível não se identificar com o protagonista; a forma com que King apresenta cada dilema é muito factível. Portanto, muito embora estejamos diante de uma história fantástica, conseguimos nos imaginar agindo da mesma maneira que Johnny se nos deparássemos com cada um de seus desafios.

Evidentemente, este livro não seria de Stephen King se não tivesse um vilão marcante. Bem, aqui temos dois. O primeiro é um assassino em série que atormenta uma pequena cidade interiorana. Seu objetivo principal na obra é mostrar para Johnny que seu poder também pode ter uma utilidade benéfica para a sociedade. Detalhe que merece destaque é a investigação de Johnny sobre o assassinato de uma criança. Quando o protagonista toca o exato local onde ela foi morta, toda a cena é apresentada novamente a ele; e a descrição de King para esta parte é qualquer coisa de inacreditável, é impossível não ficar com a espinha gelada.

O segundo, e principal, vilão é Greg Stillson. Um ser odioso, dono de um raro dom de cativar a todos os que estão ao seu redor e que tenta galgar novos degraus, agora investindo em uma carreira política, o que pode significar o fim de toda a humanidade.

O personagem de Greg é um mistério. Sua popularidade é tão forte quanto sua crueldade. Johnny sabe disso… aliás talvez seja o único que saiba exatamente o tamanho do poder e da loucura de Greg. Assim, ele é a única pessoa capaz de detê-lo.

Enfim, esta é uma obra-prima de Stephen King. Personagens marcantes, narrativa poderosa e um final marcante. É, definitivamente, um livro obrigatório para quem gosta de livros baseados não somente na ação e no sangue, mas que sejam focados principalmente nas pessoas e nos efeitos que fatos trágicos podem ocasionar em suas vidas.

Alguns pequenos detalhes: este livro já foi transformado em filme pelo diretor David Cronenberg em 1983; a película é difícil de ser encontrada, mas vale a pena. Assisti ao filme anos atrás e, com certeza, é uma das melhores adaptações de uma obra de Stephen King. Além disso, baseada nele foi produzida uma série, iniciada em 2002 e cancelada em 2006.

Por fim, os comentários deste livro foram feitos baseados em uma nova edição publicada pela Editora Objetiva, agora sob o selo “Ponto de Leitura”. É um livro de bolso, com ótima encadernação. O “Ponto de Leitura” foi lançado pela Objetiva em novembro do ano passado e ainda conta com poucos títulos, mas toda a iniciativa para lançar livros de bolso, com preços mais acessíveis e, principalmente, com ótima qualidade gráfica devem ser motivos de aplausos.

sábado, 27 de março de 2010

Caso Isabella – O fim antes do começo!

Enfim terminou! Na madrugada deste sábado, Ana Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni foram condenados (decisão ainda passível de recurso, deve-se lembrar) a 26 e 31 anos de prisão, respectivamente.

Mas uma coisa não me sai da cabeça desde que a menina Isabella teve sua vida ceifada há 02 anos… a condenação deste sábado não passou de uma chancela, uma confirmação de condenação já determinada há anos.

Por mais que juristas, sociólogos e jornalistas discutissem os possíveis resultados dos intermináveis debates que envolveram esse julgamento histórico, o fato é que Alexandre e Ana Jatobá já tinham suas sentenças escritas pela sociedade. A opinião pública os condenou há tempos, mas desta sentença não cabe qualquer recurso.

Todo o “circo” armado pela acusação e defesa por todo o processo criminal, desde sua fase embrionária no inquérito até a teatralização do juri em si, causou-me enjoo. Senti-me mal ao ver tanta dedicação de um promotor com a “insaciável” sede de justiça, assim como causava-me ânsia de vômito observar o advogado de defesa “emocionando-se” com todo o drama sofrido pelos acusados.

Todos os dias crianças têm suas vidas ceifadas no Brasil. Todos os dias pais e mães vão deitar-se desesperados, pois seus filhos desapareceram. Infelizmente, muitos deles não terão sequer o direito de enterrá-los.

Mas não nesse caso. A divulgação maciça dos eventos que determinaram a morte de Isabella, tornaram essa criança uma filha de todos nós. Como pais desesperados, tentamos de todas as maneiras achar um culpado… encontramos dois.

Na histeria geral que envolveu o caso Isabella, a maioria da população deixou de analisar a questão como um fato social que seria apreciado juridicamente pelo Poder Judiciário. Como bons pais, estabelecemos nosso foco de atenção e imediatamente condenamos à prisão perpétua Alexandre e Ana Jatobá.

Talvez, muitos podem pensar que esteja aqui defendendo os dois condenados. Não estou. Por tudo o que acompanhei do processo, não consigo imaginar como uma terceira pessoa poderia ter cometido o crime, somente os dois teriam condições para praticar tal ato. O que digo neste momento é que a divulgação excessiva de um determinado fato pode resultar em uma grande e incorrigível injustiça.

Imaginem, por exemplo, que Alexandre e Ana Jatobá fossem considerados inocentes. A decisão do júri é soberana de acordo com a nossa Constituição (art. 5º, inc. XXXVIII, alínea “c”) e deve ser respeitada por representar a verdade real do processo.

Mas e a verdade da sociedade? Entenderíamos nós que pai e madrasta de Isabella são inocentes? Acataríamos a soberania do veredicto do júri e deixaríamos os acusados continuar sua vida normalmente?

Acredito que não. A pena dos acusados vai muito além de 31 ou 26 “míseros” anos, pois a sociedade já estabeleceu a pena perpétua para ambos.

O que digo aqui é quase impossível de ser atendido, mas talvez seja hora da sociedade tentar pensar de uma maneira mais racional, não se deixando levar pela emoção desmedida o tempo todo, estabelecendo heróis ou criando vilões; isso porque a sociedade cria sua própria verdade, mas talvez a sua verdade não represente com exatidão a realidade.

Lembro mais uma vez que os acusados ainda poderão recorrer da decisão dos jurados. Em um recurso uma reviravolta pode acontecer, transformando os agora condenados em inocentes. Mas e a sociedade, conseguirá inocentá-los?