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Corda Bamba–Homenagem ao Dia das Mulheres

Abri os olhos. Senti meu corpo sacudir pela ação do vento. Percebi que me apoiava em algo estranho. Olhei para os meus pés. Estava em uma corda bamba. Tomado pelo medo, fitei à frente. A uns 15 metros, ao final da corda, havia uma pequena plataforma. Segurança. Tentei olhar para trás. Não consegui. Desequilibrei-me e quase caí. Só então percebi que era impossível visualizar o chão. Não podia precisar a altura, mas em certo ponto do desconhecido abaixo, uma bruma densa como pedra me impedia conhecer o destino fora da corda bamba. Tinha que caminhar. O medo da morte fez que com me apaixonasse pelo fio sobre meus pés. Aquela corda era minha sustentação. Meu equilíbrio. Meu único existir. Precisava caminhar. Os passos eram lentos, mas confiava na corda. O trajeto era firme, linear, sem obstáculos. A plataforma se aproximava. Senti uma doce brisa vinda do leste. Sorri. Desequilibrei. Quase caí. Maldita brisa. Doce brisa que quase me arremessou em direção ao nada. Aquietei meu coração. Ma...

Conto - Lembranças

Era outubro, mas o calor da primavera ainda não vencera o inverno rigoroso. Todas as plantas que envolviam a casa simples traziam em seus corpos as marcas gélidas de um orvalho intenso da noite recém afugentada pelos primeiros raios de Sol. Dentro da residência o silêncio reinava quase absoluto; era combatido somente por alguns passos arrastados. No corredor, um casal de idosos seguia de braços dados rumo à sala. Uma terceira pessoa os seguia desinteressada. – Seu José, pode deixar que eu levo a Dona Maria para a sala. O senhor não pode se esforçar assim. – A enfermeira fingia preocupação. Cuidar de um casal de velhos não era um emprego ruim, mas ser obrigada a acordar em um domingo antes das oito horas da manhã era motivo suficiente para amaldiçoar a família inteira dos patrões. – Arre! Já disse que eu levo ela. Teimosia besta! – Resmungou o velho com a voz rouca. Enquanto sua mão esquerda tateava a parede de madeira buscando um equilíbrio perdido há algum tempo, o braço direito...

Crônica - Guerreiros

Sentei-me na poltrona de frente para a TV e aguardei o jogo começar. O hino tocava enquanto a câmera caminhava pelas faces dos jogadores... alguns balbuciavam a letra, outros não. Há dias temia o jogo contra a Holanda, com certeza, nosso mais forte adversário nesse campeonato mundial. Era um time forte, aplicado e com alguns lampejos de criatividade assustadora. Após trilar o apito do árbitro, uns poucos instantes de futebol proporcionaram uma reflexão e duas conclusões rápidas: a laranja mecânica estava com as engrenagens em descompasso e o Brasil estava nervoso além da conta. O destempero do time brasileiro assustou-me um pouco. A imagem de um ensandecido Robinho gritando “fuck off” para um holandês (em uma supercâmera lenta, onde foi possível perceber o ódio estampado em cada músculo), não contribuiu em nada para tranquilizar minha mente. Mas o nervosismo pareceu um problema irrelevante, pois o Brasil jogava muito mais que a Holanda. Passes curtos, rápidos, precisos... a laran...

Análise – Livro – Sinuca de Bico

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SINUCA DE BICO Autor: Josh Bazell Editora: Rocco Páginas: 286. R$ 39,00 O Dr. Peter Brown não é uma pessoa feliz. Pelo contrário, parece odiar a tudo e a todos que o cercam, desde animais inofensivos aos pacientes que é obrigado a atender no Manhattan Catholic Hospital, onde é médico residente. Cada dia no exercício da medicina assemelha-se mais a uma condenação do que o simples desempenho de uma profissão. O que não deixa de ser verdade, pois o protagonista do primeiro livro escrito pelo estadunidense Josh Bazell não cursou medicina pelo firme propósito de salvar vidas alheias (o que, inclusive, gera uma impagável passagem no livro no início do segundo capítulo), mas para fugir da máfia, que não vai descansar enquanto não tiver sua cabeça em uma bandeja. As coisas complicam por completo quando um dos pacientes o reconhece e ameaça denunciar sua nova vida para David Locano, exatamente o chefe do ...

Análise – Livro – Caim – José Saramago

Autor: José Saramago Editora: Companhia das Letras 172 páginas. R$ 38,00. Antes de iniciar a análise propriamente dita, é importante frisar que as opiniões aqui exaradas são referentes somente ao texto de Saramago. Tentarei não expor qualquer opinião religiosa, muito embora o livro aborde de maneira incisiva o tema. Um segundo ponto que devo salientar (este com repercussões mais diretas ao livro) é que Saramago é ateu. Mas a leitura de “Caim” me deixou a impressão que o autor acredita que Deus não existe e se existisse o odiaria. Opinião dele, esta eu não discuto; porém, o seu aparente ódio refletiu no resultado final do livro, negativamente falando. A história de “Caim” inicia antes mesmo de seu nascimento. Estamos falando do limiar da humanidade, ou melhor, do Universo em si. Saramago coloca a sua visão da criação, com o jardim do éden e seus primeiros habitantes humanos: Adão e Eva (no livro, todos os personagens têm a primeira letra do nome minúscula, inclusive Deus. Ma...

Análise – Livro – A Zona Morta – Stephen King

Autor: Stephen King Editora: Ponto de Leitura 610 páginas. R$ 19,90. A marca “Stephen King” é conhecida no mundo inteiro. Mesmo aqueles que nunca leram um livro do Sr. King já assistiram um filme baseado em alguma de suas obras. São dezenas. Algumas de gosto duvidoso, outras pequenas obras de arte. A Zona Morta inclui-se tranquilamente nesta segunda categoria. Neste livro, Stephen King narra a história de um jovem professor de uma pequena cidade estadunidense, John Smith, que desde criança tem um dom perturbador; quando toca em uma pessoa é capaz de descobrir tudo sobre o seu passado, além de enxergar flashes de seu futuro. Este dom surge em um momento dramático de sua infância, quando sofre um acidente no gelo e bate fortemente sua cabeça. Porém, somente na idade adulta toda a intensidade de sua aptidão seria revelada. Coincidentemente após outro acidente. Entretanto, este acidente quase lhe ceifou a vida, deixou marcas perpétuas em seu corpo, além de tê-lo feito perder ...

Caso Isabella – O fim antes do começo!

Enfim terminou! Na madrugada deste sábado, Ana Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni foram condenados (decisão ainda passível de recurso, deve-se lembrar) a 26 e 31 anos de prisão, respectivamente. Mas uma coisa não me sai da cabeça desde que a menina Isabella teve sua vida ceifada há 02 anos… a condenação deste sábado não passou de uma chancela, uma confirmação de condenação já determinada há anos. Por mais que juristas, sociólogos e jornalistas discutissem os possíveis resultados dos intermináveis debates que envolveram esse julgamento histórico, o fato é que Alexandre e Ana Jatobá já tinham suas sentenças escritas pela sociedade. A opinião pública os condenou há tempos, mas desta sentença não cabe qualquer recurso. Todo o “circo” armado pela acusação e defesa por todo o processo criminal, desde sua fase embrionária no inquérito até a teatralização do juri em si, causou-me enjoo. Senti-me mal ao ver tanta dedicação de um promotor com a “insaciável” sede de justiça, assim como cau...