terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Análise – Livro – A Estrada – Comarc MacCarthy

A Estrada
Autor: Cormac MacCarthy
Editora: Alfaguara
Pág. 234 – R$ 36,90

O que nos mantém caminhando? O que nos impulsiona para frente, mesmo inexistindo perspectiva de um futuro melhor?

Neste perturbador livro de Cormac MacCarthy os dois protagonistas se deparam com este dilema todo o tempo, enquanto caminham por uma estrada sem fim, buscando algo que nem mesmo eles sabem o que é.

MacCarthy é autor do livro que originou o filme dos irmãos Coen, “onde os fracos não tem vez”, e nos apresenta aqui um futuro desolador. Por motivos não explicados no livro, o mundo que nós conhecemos não existe mais. Tudo foi destruído e encontra-se encoberto por uma espessa manta cinza. Há anos o Sol existe apenas como uma sombra pálida em um céu eternamente nublado.

Neste cenário desolado, um pai e um filho caminham por uma estrada rumo ao sul. Tentam encontrar o mar e, talvez, um mundo novo, com algum resquício de vida. No caminho deles apenas a morte se faz presente à todo momento. Tudo o que é visto pela estrada ou morreu ou está moribundo, clamando pela morte.

O tom da narrativa, como se percebe, é tenso e triste por todo o livro. Quase não há espaço para esperança; assim, mesmo fatos positivos e alegres (como encontrar alguma comida enlatada pelo percurso) é encarado com frieza que quase pode ser confundido com desdém, afinal, mesmo o alimento que os manterá vivos tem uma função efêmera de somente retardar o final certo e inevitável.

O texto de MacCarthy é maravilhoso ao retratar o mundo extinto e as pessoas agonizantes que o habitam. Tratando insistentemente a história de maneira crua e sem perdão, o autor opta por utilizar descrições curtas dos ambientes, empregando muitos pontos simples durante os parágrafos. Desta maneira, a narrativa aparenta ser “quebrada” ou às vezes “inacabada”. Apenas o essencial é transmitido ao leitor, mas isto não quer dizer que a ambientação não seja clara; com essa técnica, autor impõe ao leitor o dever de terminar a construção do cenário, ampliando a sensação de desolação de tudo o que cerca os personagens.

Entretanto, sem dúvida alguma, o melhor do texto de MacCarthy é reservado à dupla de protagonistas. Pai e filho, ambos sem nome, são descritos fisicamente pelo autor com alguns poucos detalhes que retratam as dificuldades pelas quais eles passaram no decorrer da caminhada. Todo o resto é deixado para o leitor.

As falas de ambos, acompanhando o ritmo cru da narrativa, são de uma sinceridade desconcertante. Não são poucas as vezes que você se surpreenderá com os diálogos desesperançosos de ambos. Um perfeito exemplo disto encontra-se na página 49, quando o menino vira-se para o pai e diz:

“Eu queria estar com a mamãe.

Ele não respondeu. Sentou-se ao lado do vulto pequenino embrulhado nas colchas e nos cobertores. Depois de algum tempo ele disse: Você quer dizer que queria estar morto.

É.

Você não deve dizer isso.

Mas eu queria.

Não diga isso. É uma coisa ruim de se dizer.

Não dá para evitar.

Eu sei. Mas tem que evitar.

Como é que eu faço isso?

Não sei.”

Como se percebe dessa pequena pérola acima, o autor não interrompe o diálogo com explicações sobre a reação dos personagens à cada fala, talvez porque, afundados na tristeza e ausência de perspectiva de um futuro melhor, os protagonistas não reajam às falas uns dos outros. Desta maneira, as conversas fluem de uma maneira natural e rápida, sem divagações sobre o que foi dito.

Um se apóia no outro para continuar seguindo em frente. São muitos os obstáculos que o fazem pensar em parar ou desistir totalmente de acreditar na bondade humana: mortos por todos os lados, sobreviventes saqueando e matando com o único objetivo de manter-se vivos, além de homens (os quais aparentemente perderam a noção de humanidade) que praticam o canibalismo (inclusive infantil) para não sucumbir ao descanso eterno. Na tentativa de encontrar um lugar habitável, almejam também não perder o que lhes resta de humanidade em meio à loucura que os rodeia.

Ao final do livro, contudo, percebe-se que o amor os manteve caminhando quando tudo os impulsionava para a morte. A vida era sofrida demais, tudo o que havia sobre a Terra estava morto e enterrado sobre uma manta cinza. O amor era a única razão para prosseguir, não permitindo que sucumbissem ao desespero, mesmo quando tudo os impelia nesta direção. Era somente este sentimento que os distinguia dos demais moribundos encontrados numa estrada sem fim e sem futuro.

P.S.: Este livro foi recentemente transformado em filme, o qual é estrelado por Viggo Mortensen e entrará em cartaz nos cinemas brasileiros em 12/02/2010.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Análise – Cinema – Avatar

AVATAR (2009)
Diretor e Roteirista: James Cameron
Elenco: CCH Pounder, Peter Mensah, Lola Herrera, Matt Gerald, Sigourney Weaver (Grace), Wes Studi, Sam Worthington (Jake Sully), Joel Moore (I), Zoe Saldana, Giovanni Ribisi, Laz Alonso, Michelle Rodriguez (Trudy Chacon)

Escrevo esta análise ainda anestesiado com a inebriante experiência proporcionada pelo novo e fabuloso filme de James Cameron. Uma década depois de conquistar o mundo com Titanic, Cameron nos assombra agora com a impressionante história dos Na’vi, um povo residente do planeta Pandora, o qual é forçado a conviver com uma raça alienígena (os humanos) que firma bases em sua terra na busca por um minério precioso.

Infelizmente não pude assistir o filme em uma sala de projeção 3-D, portanto, boa parte da experiência criada com os novos equipamentos desenvolvidos pela Weta (empresa de Peter Jackson que já havia realizado pequenos milagres em Senhor dos Anéis) perdeu-se na visão padrão em 2-D. Contudo, se a experiência não foi completa, o que me foi apresentado na sessão causou um deslumbramento tal que se torna complexa a tarefa de descrever todos os pontos positivos deste filme.

Quando leio algum comentário sobre determinado filme onde mencionam que é impossível distinguir as criações por computação gráfica do “mundo real” fico ressabiado. Isso porque sou bastante crítico neste ponto e normalmente a distinção entre esses dois mundos é bastante nítida no decorrer da produção, especialmente com relação à textura dos objetos e personagens. Quase sempre é possível notar uma diferença clara entre o real e o desenvolvido por computação gráfica.

Ocorre que, em Avatar, por várias vezes, simplesmente não conseguia afirmar se o que estava vendo existia, na realidade, ou se era produto de uma série de linhas de comandos de um software. Tudo parece tão crível, são palpável... desde o início do filme tentei encontrar falhas nos efeitos especiais... depois de um tempo desisti, era uma busca inútil, pois os erros quase não existiam.

Ao assistir o filme você sabe que tudo aquilo foi criado por computador, porque normalmente não se vê seres azuis de 3 metros de altura andando normalmente pela rua. Fora esse “pequeno” fato, os Na’vi são totalmente reais, assim como todo o ecossistema de Pandora.

Por falar em Pandora, deve-se ressaltar um belíssimo trabalho de criação do planeta, o qual é coberto, em quase sua totalidade, por uma densa floresta semelhante às Tropicais. No desenvolvimento deste sistema complexo e delicado (posto ser todo interligado, como se percebe durante o filme), boa parte da flora foi aproveitada de espécimes existentes na Terra e outra foi modificada por Cameron com o claro intuito de causar o deslumbramento do espectador. Assim, são diversas as plantas que brilham no escuro, que se fecham por completo ao menor toque ou que soltam sementes que mais parecem ter sido extraídas de um documentário do Discovery sobre o fundo do mar.

Pandora é grandiosa, as batalhas durante a projeção são de proporções colossais, porém, o mais impressionante no que tange os efeitos são os pequenos detalhes. O ato banal de comer uma fruta torna-se um deleite absoluto para os olhos; cada criatura tem suas “pequenas falhas” naturais na pele, tornando cada personagem computadorizado um ser único, meticulosamente pensado em suas particularidades.

Com relação aos personagens, os efeitos de criação dos Na’vi são totalmente direcionados para criar uma verossimilhança nas ações e reações dos mesmos, tornando-os tão “humanos” quanto possível. Assim, não há como deixar de emocionar quando os homens atacam impiedosamente o lar dos Na’vi. A reação dos nativos é tão real que a empatia com o público é imediata. A imensa dor deles é sentida pelo expectador nos mínimos detalhes.

Ao final do filme percebe-se ter havido uma perfeita simbiose entre atores e tecnologia. A relação entre o público e os Na’vi é intensa graças não só à computação gráfica, mas à atuação de todo o elenco. Os efeitos visuais dos Na’vi são maravilhosos e captam cada nuance da fisionomia dos atores, assim, a atuação é transportada para a tela como se não houvesse a barreira tecnológica entre ator e espectador. Ou seja, a atuação em Avatar é imprescindível para que o público se identifique com os habitantes de Pandora.

Sem os efeitos fantásticos, mesmo com boas atuações, os Na’vi seriam inverossímeis. Sem ótimas atuações, a enxurrada de efeitos se tornaria estéril, sem a ligação emotiva necessária para a imersão do público.

Até o momento praticamente só comentei os efeitos especiais de Avatar. As razões para isto são óbvias. Porém, o resultado final do filme não seria tão bom se o roteiro e as atuações não fossem também de boa qualidade.

O roteiro é bem simples; nada truncado e com longas discussões filosóficas. Porém, cumpre o seu papel com louvor, fazer com que o público afeiçoe-se com os Na’vi, um povo primitivo e que cultua o seu planeta, não só como um deus, mas como um organismo vivo e interligado do qual dependem totalmente para sobreviver. Em contrapartida, os humanos, em sua maioria, são retratados como os imperialistas e mercenários que visam somente o lucro; se para atingir seus objetivos for necessário destruir completamente o povo Na’vi, tudo bem, desde que os dividendos compensem o sacrifício.

James Cameron leva o espectador a torcer todo o tempo pelos Na’vi. Desde à forma de vida dos Na’vi, passando pela diferença gritante entre os cenários onde vivem os nativos e os humanos, pois enquanto estes são rodeados por cinza e branco, formando um ambiente sem vida e mecanizado, a casa dos Na’vi é uma explosão de cores e sensações, pulsando, reagindo e interagindo com todos os habitantes, demonstrando ser um organismo vivo e complexo em sua magnitude.

Não pude ver Avatar em 3-D, não consegui sentir toda a experiência em seu esplendor, contudo, tudo o que me foi mostrado em mais de 2h30min de projeção foi suficiente para comprovar (mais uma vez) a imensa qualidade de James Cameron em criar histórias fantásticas que nos cativam e comovem. Cameron pode não ser o cara mais simpático do mundo (afinal, se autoproclamou rei na entrega do Oscar por Titanic), mas é inegável a sua capacidade e talento como diretor. Só vamos torcer para que ele não demora mais uma década para nos presentear com mais uma de suas pérolas.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Análise - Livro - O Símbolo Perdido - Dan Brown

O Símbolo Perdido
Autor: Dan Brown
Editora Sextante
489 páginas. R$ 39,90

Fast food. Acredito que assim possa ser resumido este livro de Dan Brown. Assim como essas comidas rápidas, este livro passa ligeiro, é gostoso de ler, mas jamais será eleito o prato preferido de alguém.

Nesta obra, acompanhamos mais uma aventura do simbologista Robert Langdon, que se envolverá (novamente) em uma trama repleta de símbolos escondidos, que, caso revelados, mudarão os rumos da humanidade.

Dan Brown elege, desta vez, a capital americana como cenário para sua trama e os mistérios da francomaçonaria como motriz dos personagens principais. Nesse trajeto, portanto, somos levados à lugares escondidos de Washington, investigando os segredos por trás de toda a arquitetura americana; a qual foi inspirada em rituais maçônicos (haja vista que seus fundadores eram irmãos de maçonaria) e no anseio de liberdade que movia todos os participantes do projeto de independência e unificação dos estados americanos.

Evidentemente, como este é um livro de “teoria da conspiração”, a parte do “anseio de liberdade” é posta de lado, dando lugar principalmente à forma mística de criação da capital americana. O que não deixa de ser uma pena, pois a história americana foi um marco inigualável na luta pelos direitos humanos e no delinear do constitucionalismo, ou seja, o estudo da Constituição como norma máxima de um Estado.

Mas esse é um livro fast food. Essas questões demandam um aprofundamento de discussões sérias e densas, as quais não tem espaço nas quase 500 páginas da obra (como se não houvesse tempo para elas).

O tempo, aliás, é fator essencial na obra e na forma de leitura do livro. A ação toda se desenrola em aproximadamente 12 horas da vida de Robert Langdon, então, não há tempo a perder com discussões “menos importantes” como as mencionadas anteriormente.

Eu não li “O Símbolo Perdido”, eu o devorei. Fato inédito para mim, pois sempre adorei degustar um livro com calma; sempre leio algumas poucas páginas por dia. Assim, posso assimilar toda a leitura, a narrativa, pensar nas atitudes dos personagens, enfim, viver a aventura com intensidade e de maneira plena. Contudo, simplesmente não consegui parar de ler o este livro de Dan Brown, especialmente a partir da página 250, aproximadamente, quando a coisa toda engrena de forma definitiva.

Lendo o parágrafo acima, você, leitor, pode imaginar: “Nossa, então esse livro é ótimo!!!”. Não é bem assim.

Este é um livro de símbolos e códigos. Quando terminei a leitura, analisei tudo o que tinha vivido antes e tirei várias conclusões.

A primeira delas é que, sendo um livro de códigos, somente eles interessavam durante a leitura. Li quase 300 páginas em um dia (coisa que nunca havia feito antes na vida), simplesmente para saber o segredo dos símbolos. Então, até descobrir tudo o que eles escondiam, eu lia desesperadamente, sem atenção, quase sem prazer de ler, eu somente tinha que descobrir o significado. Entretanto, quando a verdade é revelada e alguns segredos da narrativa são iluminados (alguns bem decepcionantes, por sinal), o objetivo do livro se esvai. O que sobra são quase 50 páginas para serem lidas, as quais eu também devorei, mas por outro motivo... o livro já acabara e eu ainda estava com ele na mão, precisava terminá-lo, então li desesperadamente, sem atenção, quase sem prazer de ler. Tinha, apenas, que encerrar aquelas páginas para poder pegar uma próxima obra.

Não deveria ser assim. Um bom livro é aquele que você lê com vontade, mas sente um aperto no coração ao ver que o fim se aproxima; deseja encerrar a leitura, mas gostaria que tivesse mais algumas páginas para gozar aquele sentimento um pouco mais.

A segunda conclusão é que “O Símbolo Perdido” é SOMENTE um livro sobre códigos e símbolos, não sobre personagens. Este é o seu principal ponto negativo. O autor, em momento algum, preocupa-se em desenvolver os personagens da trama ou criar um vínculo afetivo entre eles e o leitor.

Dan Brown, por sinal, da mesma forma que é ótimo para criar coincidências em sua obra é terrível em desenvolver personagens, pois todos, sem qualquer exceção, são absolutamente desinteressantes; incluindo o próprio Robert Langdon, o qual, em teoria, deveria representar a mente humana, racionalizando toda a mística que envolve o cotidiano dos homens. Ele deveria ser a ciência em meio aos bárbaros, com todos os questionamentos, dúvidas e medos que envolvem o caminhar pelo desconhecido. Todavia, suas dúvidas soam tão artificiais, mecânicas, que não conseguimos nos envolver, nos identificar com aquele que seria a representação do nosso cérebro.

Também pudera, na tentativa de criar empatia entre Langdon e o leitor, Brown limita-se apenas a narrar a história que originou sua claustrofobia e a mostrar, vez por outra, o ridículo relógio do Mickey. É pouco, muito pouco para desenvolver sentimento de afeição para com o público.

Tão ruim quanto ou pior é o desenvolvimento dos irmãos Solomon, que na obra tem papel essencial. Para demonstrar que eles são pessoas boas e honestas o autor, em um arroubo de criatividade, resume toda a natureza desses indivíduos, a pessoas com “olhos cinzentos”. Uma pergunta: Que diabos significa ter, a pessoa, olhos cinzentos? Bem, ao menos para o autor, isso significa: “esse cara é bacana, nele você pode confiar”.

O problema maior de não saber desenvolver os personagens é que você não consegue dar a mínima para o futuro deles. Morram, vivam, sofram... pouco importa. Eles não são nada para você, então, o que venha a acontecer também será totalmente irrelevante.

Esse é um erro crasso em um livro que discute o futuro da humanidade. Para que os símbolos tenham relevância, para que você sinta os efeitos drásticos da sua elucidação, você precisa se preocupar com os indivíduos imediatamente atingidos pelos efeitos dos mesmos, os personagens. Se eles são irrelevantes, os símbolos também perdem sua força.

Por último, não posso deixar de mencionar uma artimanha ridícula do autor. O livro é narrado em 3ª pessoa onisciente, portanto, o narrador (e o leitor) conhece os personagens em seu interior. Porém, em certo momento da história, o narrador conta todo o passado de um dos personagens principais da obra de maneira enganosa; o narrador mente para o leitor (o que é ilógico, pois os dois deveriam funcionar como um só), contando de maneira errada o passado deste personagem com o único objetivo de criar (não há palavra melhor que defina o que Dan Brown fez neste ponto do livro) uma reviravolta ridícula no final. Qualquer escritor que se preze tem de inventar formas de tornar a história verossímil, acredito que mentir não é a melhor forma de se fazer isto.

Como disse no início, este é um livro fast food. Seu tema são os símbolos e os segredos que os envolvem, é esta a mola impulsionadora da história. Os personagens são irrelevantes. É uma pena Dan Brown não ter percebido que, no final das contas, o importante são os indivíduos e os efeitos que os segredos desvendados podem fazer em suas vidas. Sem os personagens, o livro fica estéril, sem vida. Ao término da leitura essa é a sensação; o livro é rápido e os códigos são interessantes, porém, são totalmente sem sentido, pois não é possível conectar-se a quem realmente deveria ser a parte principal da obra, as pessoas.