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Crônica - Sim e Não

Gostaria imensamente que a vida tivesse respostas curtas. “Sim”, “não”... sentenças simples, porém, carregadas de significado. Teríamos tempo, então, para cuidar do resto, pois os problemas não seriam classificados como tais, posto estarem contidos e respondidos dentro destas três letras. Infelizmente essa não é a vida que tenho. O que não significa ser impossível segui-la com base nestas duas palavras singelas. Muitos, aliás, o fazem dessa forma, respondendo aos obstáculos de maneira simplória. Aprendi há muito que as respostas dependem de um retroceder, a fim de encarar o seu núcleo, jamais se esquecendo de avançar para o amanhã, compreendendo as consequências das respostas dadas. Porque, se há algo de invariável na Terra é a sujeição de todos aos próprios atos. Nada escapa da sua origem, assim como nada escapa das consequências. O relógio avança muito da meia-noite enquanto escrevo estas palavras. Observo a internet e nela encontro o ódio de costume. Gritos, dedos em riste, verdade...

CRÔNICA - FELICIDADE

O que é felicidade? Assim como a maioria da população mundial, durante toda a vida, busquei compreender o que seria a felicidade. E aproveitando produtivamente os momentos de ócio de que dispunha, elaborei diversos conceitos sobre sua delimitação, como a encontraria e de que forma ela se manifestaria. Provavelmente tudo o que fiz está errado, é claro. Hoje, contudo, não gostaria de falar sobre o conceito de felicidade, mas dar um exemplo da sua presença. Quem sabe isso auxilie na sua conceituação. Meu filho Matheus tem recentes 04 anos completos e, agora, começou a mostrar interesse por filmes (animações, evidentemente). E isso é um avanço, pois hoje ele tem paciência e foco para assistir a um programa que dure mais de 20 minutos. Por isso, há algumas semanas, resolvemos leva-lo ao cinema Passava Operação Big Hero. Fiquei em casa para cuidar de nossa filha menor e minha esposa o acompanhou. Ao retornar, ele era a representação da empolgação: corria, pulava, arfava de cansaço...

CRÔNICA - MAIS UM SÍMBOLO

Mulher é assassinada a tiros. A manchete não guarda novidades. Várias são mortas diariamente das mais variadas formas e graus de selvageria. De tão acostumados, por vezes, passamos a página do jornal, pois o título grita por si e os fatos, salvo apuro redacional do jornalista, pouco acrescentarão às centenas de predecessoras. Mas essa mulher era diferente. Era vereadora da cidade travestida de zona de guerra. Calhou ser negra e envolta em movimentos sociais. De mulher passou à vereadora; de vereadora passou à vítima; de vítima passou a símbolo... e os símbolos passam a ser qualquer coisa, dependendo de quem os manipula. Os dias seguiram e os íntimos viveram o seu luto da maneira particular e afeta a cada um. Contudo, os símbolos têm uma existência particular e a sua “vida” está atrelada ao seu uso pelas massas. Porém, causa-me sempre uma certa melancolia testemunhar a transformação de um indivíduo em símbolo. Isso porque exclui da vida aquilo que a faz mágica e única... su...

CRÔNICA - UM PASSADO VINDOURO?

Como 2018 será lembrado? O despontar do novo ano apresentou um pretenso vislumbre do futuro que me fez interromper a lista de planos para o caminhar do calendário (promessas a serem devidamente descumpridas) e fixar meu olhar para o próximo 31 de dezembro. De um lado, um ditador cego diz ter o botão do apocalipse em sua mesa de trabalho, de outro, o sumo pontífice, tentando abrir nossos olhos, apresenta um cartão de ano novo relembrando a tragédia de Hiroshima e Nagasaki, onde uma criança aguarda o momento de entregar o irmão menor morto (carregado em suas costas) para a cremação. Em tempos insensíveis, onde o sentimento do outro só nos interessa na medida em que nos aproveita, é impossível deixar de olhar a imagem do passado e, misturando-a com a do presente, assustar-se com a probabilidade de estar ali parte do nosso futuro. Queria considerar o dia mundial da paz mais um dos muitos feriados inúteis, como tantos outros que inundam nosso calendário, todavia, enxergo-o ...

CRÔNICA - FOTOS

Começo este texto concedendo autorização expressa a todos para me chamarem de ultrapassado. Assim, deixo vocês tranquilos, livres de constrangimentos e exames de consciência posteriores. Autorização carimbada, digo logo: tenho cisma com excesso de fotos. Sou incapaz de compreender o motivo pelo qual as pessoas precisam clicar cada milésimo de segundo de suas existências. Não que desgoste de fotos. Pelo contrário. Acho uma invenção pra lá de útil e lanço mão dela constantemente pra registrar meus pequenos. Mas o excesso... Sabe o que é pior nisso tudo? Pra mim as fotos estão tomando o lugar (antes insubstituível) das lembranças, ou melhor, das memórias afetivas. Agora a coisa enroscou e você deve se perguntar: “Como uma foto, instante do tempo congelado à perfeição, pode atrapalhar a memória?” Relaxe. Parece não fazer sentido mesmo. Eu também critiquei incontáveis vezes o raciocínio que explicarei um cadinho abaixo do texto. Porém, derrotado, rendi-me a ele. E acred...

Crônica - Willow

Vídeo locadoras estão margeando a extinção. A pressa prática dessa nossa vida impôs aos seus proprietários o autoreconhecimento de sua obsolescência e o baixar de quase todas as portas. Mas alguns ainda resistem e, aqui em Colatina, perto da minha casa, a Vídeo Logos mantém-se aberta. Teimosa, apesar dos pesares. Volta e meia levo meu filhote para escolher um filme lá. Precisar não precisa. Com o controle na mão ele pode acessar todo o Netflix ou alugar qualquer título para assistir na hora, mas ele adora ir na locadora. Então vamos. Certo dia fomos com a trupe completa à Vídeo Logos, foi a primeira vez da minha pequena. Ela estava ao meu lado quando entrou, mas ficou logo para trás. Pendi meus olhos para sua direção e percebi a cabeça inquieta fitando todos os cantos do lugar. “Noooooossa, papai! Quanto filme!” E dizia o nome de todos os conhecidos... desenhos, claro. Os demais se transformaram em homens correndo, vilões malvados, princesas, etc. Todos paramos para ...

Crônica - E se?

Qual o sentido de uma tragédia? Quem nunca teve essa pergunta martelando a cabeça após ver uma desgraça estampada na capa de um jornal? Encontrar uma razão maior para o fim da vida traz o conforto de imaginar que todo o sofrimento foi necessário para transformar a realidade daqueles ainda fincados neste plano. Mais uma vez isso ocorreu comigo na última semana. A destruição. Veículos espalhados, em pedaços, na rodovia e no matagal ao lado. O fogo. Pessoas gritando por socorro. Gritando pela própria vida. Gritando pela vida dos entes queridos e dos desconhecidos consumidos nas chamas. As histórias de sofrimento do dia seguinte... Pra quê? Em casos assim, somos quase empurrados pelo cérebro a imaginar como seria a realidade, na hipótese disso não ter ocorrido. E se? E se o ônibus atrasasse 5 segundos? E se adiantasse 5 segundos? E se o caminhão parasse em um posto por mais uns instantes? E se o motorista do ônibus perdesse apenas mais um sinal verde? E se o pn...